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Hoje, após muitas discussões e divagações, ainda pairavam em mim zilhões de interrogações acerca da real magnitude do amor.
Qual seria a diferença entre amor e paixão?
O que queremos dizer quando afirmamos que amamos alguém, ou que uma pessoa ama outra?
O amor é bom?
É ruim?
É eterno?
É passageiro?
O amor aprisiona?
O amor liberta?
O que ele propicia?
É o amor, por acaso, sinônimo de fascínio, ou de ternura, ou de erotismo?
É igual ao sentimento fraterno entre velhos amigos, entre irmãos, ao carinho entre pais e filhos, entre avós e netos?
Ou é a dedicação desinteressada que alguém manifesta em relação a uma pessoa desconhecida e necessitada?
É amor aquele arrebatamento que vemos entre os namorados?
Seria a atração irresistível entre dois (ou duas) homossexuais?
O sentimento que temos pelos nossos animais de estimação é amor?
Quando queremos bem a uma pessoa, de forma intensa, estamos amando?
Ou amor são todas essas coisas?
Ou, ainda, não é nada disso?
Querer estar sempre perto de alguém, querer dar e receber carinho, compartilhar sonhos, afetos, expectativas, esperanças, trocar coisas imateriais, repartir coisas materiais, será isso amar?
O amor pode, de fato, ser conhecido?
Ou pode, simplesmente, ser vivido?
Existiria, afinal, uma resposta?
Então, lá vou eu pra a pesquisa...
O certo é que muitas foram as tentativas, ao longo da história, para se responder a questão do amor. O poeta português Luís de Camões, que viveu no século XVI, afirmou que “o amor é um fogo que arde sem se ver;/ é ferida que dói e não se sente”, e ressaltou, assim, que o amor é um sentimento essencialmente contraditório, e que, composto dessa forma, o amor “com seus contrários se acrescenta”.
Goethe, escritor alemão do século XIX, deixou transparecer, em algumas de suas obras, que o amor é a forma mais radical de “ir ao outro”, de se reconhecer intimamente num ser humano diferente. Amar é, então, em certo sentido, negar a própria individualidade a fim de viver intensamente a aventura de mergulhar na alteridade e inserir-se ativamente no movimento da comunidade humana.
No século XX, Sigmund Freud, pai da psicanálise, lançou a concepção de que o amor, a despeito de suas manifestações mais requintadas e sublimes, possui sempre um substrato físico, corporal, libidinal. Recusar ver o quanto de sexualidade existe no amor é dispor-se a ignorar a animalidade que subsiste em nós, seres humanos.
Simone de Beauvoir, que viveu com o filósofo Jean-Paul Sartre uma relação amorosa que durou 51 anos, estabeleceu a distinção entre amores essenciais e amores contingentes. Pra ela, os dois tipos de amor são importantes. O amor essencial é aquele que une duas almas perpetuamente. É o amor que Simone tinha com Sartre. Os amores contingentes são os não duradouros. Este tipo de amor, Simone o teve com vários outros homens.
Marx desenvolveu também algumas reflexões a respeito desse difícil tema.o resultado de minhas pesquisas, transcrevo abaixo, no texto do advogado paraibano Fernando Eneas de Souza.
Como se sabe, Marx foi um critico radical do capitalismo. Uma das causas de sua repulsa a esse sistema se devia ao fato de que o modo de produção capitalista introduz uma profunda “alienação” na relação entre o trabalhador e o fruto de seu trabalho. As pessoas se exteriorizam nas suas produções, colocam na produção aquilo que de melhor há em si, sua inteligência, sua experiência, sua energia, sua criatividade, sua imaginação, seus afetos, sua paixão.
Entretanto, essas criações não retornam para os indivíduos, mas ganham uma relativa autonomia e compõem uma dinâmica que passa a se impor sobre e a organizar o processo social. Como se não bastasse, o sistema da propriedade privada ainda dá origem a um terrível “estranhamento” na relação dos homens uns com os outros.
Os homens se tornam estranhos entre si. Competem, tornam-se adversários, tornam-se algozes uns dos outros, o que faz com que sejam abalados os fundamentos da própria solidariedade humana.
Nesse sistema de relações sociais alienadas, os homens e mulheres desenvolvem certas idéias que são o contrário daquilo que deveriam, de fato, ser.
As pessoas acreditam que o homem rico é aquele que possui coisas, quando, na verdade, o homem que é “naturalmente” rico, segundo Marx é aquele que “sente com mais intensidade a necessidade interior de se realizar através de múltiplas manifestações vitais”.
Rico, então, não é aquele que possui mais coisas, mas aquele que realiza as suas muitas capacidades humanas. Rico é aquele que superou a fragmentação imposta pelo capitalismo, aquele que superou a alienação.
Ora, para atingir essa condição é que é se faz necessário o amor(Olha aí onde eu quis sempre chegar!!). Como diz Leandro Konder, para Marx, “o amor é uma ‘maneira universal’ que o ser humano tem de se apropriar do seu ser como ‘um homem total’, agindo e refletindo, sentindo e pensando, descobrindo-se, reconhecendo-se e inventando-se”. (KONDER, 2007, 21).
O amor, então, leva os homens e mulheres a se realizarem plenamente enquanto tais. Seres senhores de si, de suas vidas, de seus destinos, e não criaturas completamente absorvidas pela lógica cega da realização do Capital.
Para maiores detalhes sobre as concepções de Marx a respeito do amor, Fernando indica o texto “Marx: os revolucionários também amam”, de autoria de Leandro Konder, parte do livro Do amor (São Paulo: Boitempo, 2007).